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16/10/2010 00:00  por  Leandro Roque \  política

Corre a notícia de que a população está assustada com o baixo nível da campanha eleitoral, que já está sendo considerada a pior da história.

Ora, por que esse estranhamento?  Baixaria é a regra em todo lugar em que há democracia. 

Duas quadrilhas estão disputando uma competição cujo prêmio será controlar a vida de mais de 150 milhões de pessoas e um orçamento de mais de 1 trilhão de reais.  É uma teta suculenta demais para ser desprezada.

Da mesma forma que quadrilhas de traficantes disputam à bala um lucrativo ponto de venda, as quadrilhas estatais estão disputando entre si quem terá a primazia de se fartar com todas as benesses financeiras oriundas do Pré-Sal, da Copa do Mundo e das Olimpíadas.  Imaginem o tanto de propinas, de contratos superfaturados, de grupos de interesse poderosos e de favores políticos que tais eventos vão gerar?  Quem resistiria?

Nessa eleição em particular, os incentivos para se adquirir o controle do governo federal são especialmente inéditos.  Os privilégios estatais nunca foram tão atrativos para os políticos como esses que os próximos quatro anos prometem gerar.  (É exatamente por isso que ambas as quadrilhas condenam e demonizam privatizações, que seria a única medida capaz de acabar com essas mamatas.)

Em um cenário com uma perspectiva financeira dessas, e com um poderio desses como prêmio, o que era de se esperar?  Que as quadrilhas se bajulassem?  Que apresentassem apenas "discordâncias democráticas" e se dessem tapinhas nas costas?  É tudo uma questão de lógica da ação humana.  Não faria sentido algum esperar outro comportamento das quadrilhas que não exatamente esse que está ocorrendo. 

Democracia é isso: duas quadrilhas disputam violentamente o poder para, no fim, sugar todas as nossas riquezas. E entre nós, os súditos, ainda há milhões que aprovam isso tudo.


14/10/2010 00:00  por  Daniel Henninger \  política

É algo que precisa ser dito: o resgate dos mineiros chilenos representa uma vitória maravilhosa do capitalismo e do livre mercado.

Em meio ao ilimitado regozijo humano que se seguiu ao resgate dos mineiros, pode parecer um tanto grosseiro fazer tal afirmação.  E é grosseiro.  Mas estamos vivendo em tempos grosseiros, e os riscos têm de ser altos.

Aqueles que condenam o capitalismo e o livre mercado gostam de fazer ironias, dizendo frases como esta, proclamada pelo presidente Barack Obama:

A ideia básica é que, se nós tivermos uma fé cega no mercado e deixarmos que as empresas façam o que quiserem e que todas as pessoas se virem por conta própria, então o país de alguma forma irá automaticamente crescer e prosperar.

É isso aí.  Essa é uma caricatura da ideia básica, mas basicamente ela está certa.  É só perguntar aos mineiros.

Se, 25 anos atrás, aqueles mineiros tivessem sido soterrados a 700 metros de profundidade em uma mina qualquer de qualquer lugar do planeta, eles estariam mortos agora.  O que ocorreu nesses últimos 25 anos que transformou a morte certa em um resgate exitoso?  O que foi inventado que significou a diferença entre a vida e a morte para aqueles 33 homens?

Resposta rápida: a perfuradora Center Rock.

 

Essa foi a broca milagrosa que perfurou o solo até chegar aos mineiros soterrados.  A Center Rock Inc. é uma empresa privada sediada na cidade de Berlin, no estado da Pensilvânia.  Ela tem 74 empregados.  O equipamento e a estrutura completa para perfuração vieram de outra empresa, a Schramm Inc., sediada em West Chester, Pensilvânia. 

Ao ficar sabendo do desastre, o presidente da Center Rock, Brandon Fisher, entrou em contato com os chilenos e ofereceu sua perfuradora.  O Chile aceitou.  Os mineiros estão vivos.

Agora a resposta mais longa: a perfuradora Center Rock é uma peça de tecnologia robusta desenvolvida por uma pequena empresa que estava no ramo com um único objetivo: ganhar dinheiro.  Foi em busca do lucro que ela inovou e desenvolveu suas técnicas de perfuração de solo.  Se ela ganhar dinheiro, poderá fazer ainda mais inovações.

Essa dinâmica do lucro = inovação estava por todos os lados daquela mina chilena.  O cabo de alta resistência utilizado para puxar os mineiros foi feito na Alemanha.  O cabo superflexível de fibra ótica que os mineiros utilizavam para se comunicar com o mundo acima deles foi feito no Japão.

Outros equipamentos extraordinários vindos de vários cantos do capitalismo apareceram no deserto do Atacama para salvar as 33 vidas.  A Samsung da Coréia do Sul forneceu um telefone celular que possui seu próprio projetor.  Um empreendedor da Virgínia, fundador da empresa Cupron Inc., forneceu meias feitas com fibra de cobre.  Essas meias consumiam as bactérias que se formavam nos pés, minimizando assim os odores e as infecções.

O ministro da saúde do Chile, Jaime Mañalich, disse "Eu nem tinha ideia de que tal tipo de coisa de fato existia!"

É isso mesmo.  Em uma economia aberta, você nunca saberá o que existe lá fora sendo produzido pelo setor de ponta desta ou daquela indústria.  Porém, a realidade por trás dos milagres é a mesma: alguém inventa algo útil, ganha dinheiro com essa invenção e então aprofunda suas inovações.  Ou então alguém entra em cena e sobrepuja sua inovação, criando outra ainda melhor.  Na maioria das vezes, ninguém fica sabendo.  Tudo o que esse mecanismo faz é criar empregos, riqueza e bem-estar.  Sem esse sistema operando em segundo plano, sem o progresso anual incorporado nessas inovações capitalistas, aqueles mineiros soterrados estariam mortos.

O resgate dos mineiros foi um emocionante momento para o Chile, uma demonstração do crescente prestígio e importância desse país.  Mas é inevitável não pensar naquela empresa de 74 pessoas em Berlin, Pensilvânia, cuja perfuratriz de alta tecnologia abriu a terra, desceu 700 metros e libertou 33 homens até então condenados à morte.  Existem centenas de milhares de histórias de sucesso como essa, de empresas que mudam para melhor a vida das pessoas, desde empresas gigantes como o Google até pequenas empresas como a própria Center Rock.

E é motivo de enorme felicidade para nós que esse fenômeno tenha ajudado a salvar a vida de 33 seres humanos. 

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04/10/2010 00:00  por  Leandro Roque \  política

Nessas eleições, houve um dado bastante curioso, e que obviamente passará despercebido de toda a mídia: o número de votos brancos e nulos para presidente chegou "perigosamente" perto dos 10 milhões (9,6 milhões).  Em 2006, esse valor havia sido de 6,8 milhões no segundo turno, quando as opções eram menores que no primeiro turno.

Considerando-se que havia partidos de absolutamente todos os espectros ideológicos à esquerda do centro, a única conclusão possível é a de que há, no mínimo, 10 milhões de pessoas órfãs de um partido político que defenda uma ideologia que as represente.

Como a única ideologia ausente foi a ideologia liberal-clássica, é justamente esse partido que está em falta.

Não consigo enxergar qualquer outra explicação lógica para o fato de 10 milhões de pessoas votarem branco e nulo para presidente numa eleição em que há partidos de esquerda de todos os tipos e para todos os gostos (PT, PSDB, PV, PSOL, PSDC, PSTU, PCB e PCO).

Mais ainda: considerando-se que uma parcela significativa dos eleitores do PV, PSDB, DEM e até mesmo do PMDB votam nesses partidos por mera falta de uma opção mais liberal, estamos lidando aí com um universo que pode chegar a 20 milhões de eleitores órfãos de representatividade política.

Um partido liberal bem organizado e com discurso em favor da propriedade, da liberdade econômica e do porte de armas (como bem mostrou o referendum de 2005) capturaria fácil esses eleitores.


09/09/2010 00:00  por  Rodrigo Constantino \  economia

Somente neste ano as ações da Petrobras já perderam 25% de valor em dólar, enquanto o Ibovespa está praticamente estável. É o custo PT destruindo valor na principal empresa do país. A Petrobras valia cerca de $ 200 bilhões no começo do ano, e agora vale $ 150 bilhões. Esses $ 50 bilhões a menos foram dizimados pela politicagem oportunista do governo Lula na estatal, de olho grande no pré-sal. 

A empresa fará um mega levantamento de recursos no mercado daqui a alguns dias. O valor esperado é semelhante ao destruído por conta das incertezas dos investidores e da supervalorização das reservas de petróleo da União na hora de capitalizar a empresa com esse ativo (para os leigos, trata-se de roubo puro e simples). 

Eis a brilhante lógica petista: para levantar $ 50 bilhões de capital novo para a estatal, o governo destrói $ 50 bilhões de valor de mercado dela antes! Fica tudo na mesma depois, com uma singela diferença: agora os acionistas privados minoritários (ou seria "menor otários"?) serão diluídos, enquanto o governo terá maior participação na empresa. Milhares de investidores do FGTS precisam perder, para o governo ganhar. Nada mais justo! 

O petróleo é "nosso"; mas os recursos provenientes do "ouro negro" é deles, já que ninguém é de ferro (muito menos os "altruístas petralhas"). E para quem acha que está ruim, lembre-se que sempre pode piorar. Vide a PDVSA do camarada Chávez, na Venezuela, aquele que declarou abertamente sua preferência por Dilma nas eleições brasileiras. Por que será?


04/09/2010 00:00  por  Filipe Celeti \  direito

Durante os sete primeiros dias de setembro haverá um Plebiscito Popular propondo uma limitação para a propriedade da terra.  De acordo com os organizadores, os poucos que detêm muitas terras são os responsáveis pela violência no campo e por jogarem famílias nas áreas de risco das grandes cidades ao serem expulsas do campo.

A consulta popular, até certo ponto notável por perceber as inclinações dos indivíduos, possui um caráter diferenciado nesta mobilização.  O povo ser consultado é bem diferente de o povo ser induzido a algo.  É exatamente a indução que a campanha pelo limite da terra no Brasil tem promovido.  Não é necessário refletir sobre o problema da terra e sua distribuição, pois basta votar 'sim' e participar do abaixo assinado pela limitação.

A pergunta: "Você concorda que o limite das grandes propriedades de terra no Brasil possibilita aumentar a produção de alimentos saudáveis e melhorar as condições de vida no campo e na cidade?", já possui resposta. O site oficial recomenda: "Diga sim! Coloque limites em quem não tem!"

Se a resposta está dada, como afirmar que é o povo quem está decidindo? Não há espaço para o debate político que tais organizações tanto reclamam serem excludentes. Em suma, a única coisa sem limites é a presunção, a arrogância e a prepotência que certos indivíduos possuem de violar a liberdade alheia, tendo como máscara o benefício do pequeno proprietário de terra.


20/08/2010 00:00  por  Leandro Roque \  política

Benjamim Steinbruch é um empresário multifacetado.  Hoje, ele pode facilmente ser chamado de magnata do aço.  Um dos fundadores do grupo Vicunha, que mexe com produtos têxteis, Steinbruch foi incumbido, nos anos 1990, de diversificar os negócios da empresa, e acabou entrando nos processos de privatização da CSN e da Vale.  Mais tarde, abriu mão de suas ações na Vale e aumentou sua participação na CSN, empresa da qual hoje é presidente.

Esse é o seu lado empreendedor.

Porém, como infelizmente acontece com a maioria dos grandes empresários brasileiros, Steinbruch também possui seu lado cartorial: ele é o presidente em exercício da FIESP, entidade que define o que os paulistas e, por conseguinte, os brasileiros podem importar ou não.  O atual presidente da FIESP, Paulo Skaf, coerentemente é afiliado ao Partido Socialista Brasileiro.  A mídia, que não domina assuntos teóricos, fez troça dessa afiliação de Skaf: "Um empresário socialista? Como pode?" Ora, Skaf está demonstrando corretamente suas preferências.  O atual regime brasileiro, em que os grandes empresários fazem conluio com o governo para benefício de ambos e em detrimento do resto da população, nada mais é do que a variante fascista (corporativista) de um arranjo socialista.

Mas estou digressionando.  Voltemos a Steinbruch.  Sua entrevista a seguir foi dada ao jornal Valor Econômico, muito embora seu conteúdo pareça diretamente saído da Carta Capital ou do A Hora do Povo.  Sua proposta econômica é módica, sensata e equilibrada: quer criar mais dois BNDES, desvalorizar a moeda o máximo possível e simplesmente proibir as importações, fechando o país.

A seguir, os trechos mais saborosos de sua longa entrevista.  Vale a pena ler tudo, pois seu pensamento revela como pensa grande parte do empresariado protecionista brasileiro.  Ele e o Valor vão de vermelho, eu vou de preto.

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18/08/2010 00:00  por  Cristiano Fiori Chiocca \  economia

Já faz um tempo que eu queria escrever sobre esse tema, pois sempre pensei no Instituto Mises Brasil como um disseminador da Escola Austríaca no brasil.  No lançamento do livro do Constantino, A Economia do Individuo, fiquei conhecendo o André Cardoso, um jovem leitor do site que está terminando o colegial.  Veio-me à cabeça a lembrança de quando descobri o site do Mises Institute.  Naquela época, estava entre o meio e o final do meu curso de economia, e pensei comigo mesmo: "se eu tivesse descoberto esse site antes, teria poupado uma fortuna, jamais teria feito faculdade de economia". Os artigos eram didáticos, claros, sempre bem fundamentados. Cada artigo uma aula.

O IMB nasceu mais ou menos com essa intenção: disseminar os artigos em língua local para que cada vez mais gente tenha acesso a EA.  Mas não apenas isso: um papel importante do instituto é colocar à disposição dos leitores os livros dos grandes autores da EA que já existiam traduzidos para o português.  E isso tem sido feito. Faltam poucos títulos a serem colocados no site e, no futuro, devemos ter os livros em PDF, e-books, print on demand, enfim, tudo ao gosto do freguês.

Mas não para por ai.  Os esforços do instituto se concentram agora em traduzir os livros que ainda não temos em português e também colocá-los disponíveis aos leitores.  Livros dos "decanos" da EA, como Bohn-Bawerk, Menger, Hayek, Mises, Rothbard estariam no primeiro plano.  Uma segunda etapa seriam os livros importantes de diversos autores que contribuíram e contribuem para a EA em diversos campos. Qualidade não falta!

Tudo isso pra dizer que acho que a sequência lógica do trabalho do instituto é educacional: criar cursos e aulas. Já sou da opinião de que as atuais faculdades de economia não têm mais sentido de existir; os currículos, engessados pelo MEC, ou mesmo seguindo o mainstream, não têm espaço para a EA, e dessa forma quem quiser aprender "Economics for real people" fica órfão.  E o IMB precisa preencher essa lacuna.

Nos EUA, o MI tem a Mises University e o Rothbard Graduate Seminar, que são um tipo de curso rápido, de uma ou duas semanas.

Quando estiveram aqui na ocasião do Seminário de EA, os palestrantes nos concederam entrevistas (que o Fernando está devendo) e, na missão de formular as perguntas, fiz questão de questioná-los sobre como eles veem um curso formal de economia 100% EA.  As respostas não foram exatamente o que eu esperava: eles disseram que a EA deve ocupar cada vez mais espaço , etc, etc.  Mas uma resposta em especial apontou para o Home Study Course (http://mises.org/store/Mises-Institute-Home-Study-Course-in-Austrian-Economics-P211.aspx). Mais ainda: foi dito que o ensino "por si mesmo" vai conquistar grande parte do público que hoje frequenta as salas de aula.

Ainda não conheço o conteúdo desse Home Study, mas o modelo de uma série de aulas doFundamentals of Economic Analysis (http://mises.org/media.aspx?action=category&ID=99) me agrada muito, e penso que um embrião de uma Universidade Mises Brasil deveria ser por ai, com cursos curtos, focados em certos temas, com algumas partes para os "já iniciados" e outras para os iniciantes.

Pesa o fato de que, no momento, os membros do IMB não são, como no MI, professores universitários.

O Lucas Mendes nos apresentou um projeto de aulas muito interessante e eu ainda não tenho nenhum modelo ideal em mente. Acho que isso deve ser mais explorado.  Podemos contar com a opinião do Fernando Ulrich que recentemente voltou do mestrado em EA comandado por Jesús Huerta de Soto. Enfim, nada temos ainda além de uma ideia e uma vontade de ouvir opiniões e mais ideias. No momento os esforços passam a se concentrar na tradução dos livros fundamentais da EA que ainda não existem em português.  São esses livros que amanhã formarão novos professores e serão colocados como bibliografia básica de qualquer curso que quisermos oferecer.


12/08/2010 00:00  por  Fernando Chiocca \  política

Vejam esta notícia.

Uma casa de bingo eletrônico foi vítima de dois grupos criminosos quase ao mesmo tempo.

Quando o primeiro grupo executava seu assalto, e matinha os clientes e funcionários da casa como reféns, amarrados, o outro grupo chegou.  Houve confronto entre as duas quadrilhas inimigas.  O segundo grupo frustrou a ação do primeiro, que fugiu do local abandonando seu esbulho:

"Na fuga, os criminosos deixaram duas mochilas com o dinheiro do roubo e um computador."

Porém, isto foi algo terrível para os proprietários; os bandidos que chegaram depois fizeram um assalto muito maior:

"Quase 40 máquinas caça-níqueis foram recolhidas."

 Além de um grupo ter tido sucesso em sua empreitada criminosa e o outro não, existe outra diferença importante entre os dois grupos.  A diferença é essa:

"A polícia fez buscas na região, mas ninguém foi encontrado."

O segundo grupo criminoso não está "desaparecido".  Ele está identificado, polícia do estado de São Paulo, e todos sabem o seu endereço.  Sabem inclusive para onde foi levado o produto do roubo.

E assim segue a vida em nossa sociedade de criminosos, onde uma maioria da população condena o primeiro grupo mas, bizarramente, apoia o segundo.


06/08/2010 00:00  por  Leandro Roque \  política

A eleição presidencial deste ano promete ser, de longe, a pior e mais estupidificante já vivenciada pelo povo brasileiro.  Não que as eleições anteriores tenham sido grandes coisas, muito pelo contrário.  Porém, em todas elas, havia ao menos algum discurso ou comportamento um pouco mais interessante, algo que destoava um pouco do inconsciente estatizante que sem dúvida irá dominar a eleição atual.

As eleições de 1989 até hoje foram as melhores.  Com um governo que usufruía módicos 7% de aprovação, todos os 22 candidatos eram obrigatoriamente do contra.  É claro que era possível ser contra Sarney à direita e à esquerda.  E havia uma ampla leva daqueles infatigáveis seres ansiosos para trazer o Muro de Berlim para cá. Porém, também havia aqueles que falavam coisa com coisa — e em uma quantidade que jamais se repetiu.  

Afif, cujo plano econômico havia sido elaborado pelo economista Paulo Guedes, era de longe o melhor.  Era o único, aliás, que demonstrava entender genuinamente as causas das mazelas econômicas que afligiam o país à época.  Fernando Collor, por sua vez, apresentava um discurso que falava abertamente em privatizações, redução do estado e cassação de marajás, algo proibitivo hoje em dia.  Liberal demais.  Pena que após sua posse, o carioca-alagoano — que subiu a rampa do Palácio do Planalto bufando modernidade — resolveu entregar o comando da economia a uma ex-integrante do PCB.  O resultado não poderia ter sido outro.  Por fim, até mesmo Ronaldo Caiado tinha algumas ideias modernas.

Em 1994, FHC teve de adotar um discurso mais liberal para se contrapor ao seu rival petista, que ainda sonhava com Cuba.  O mesmo ocorreu em 1998.  Em 2002, foi a vez do PT mostrar que estava ficando racional, o que trouxe um certo frescor.  Mesmo em 2006 houve alguns (poucos) bons momentos no primeiro turno, nem que fosse a participação de Luciano Bivar, do PSL.  No segundo turno, é verdade, a coisa degringolou geral.

E é nesse espírito que começará a campanha presidencial deste ano.  Dos quatro principais candidatos, todos têm DNA 100% de esquerda.  José Serra foi trotskista na juventude e é de formação econômica cepalina.  Atualmente é pós-keynesiano.  Dilma Rousseff é de formação stalinista e, em sua juventude, participava de assaltos a bancos e praticava invasão de domicílios.  Ainda não se sabe o que ela defende atualmente, pois não tem vida própria.  Lula manda, ela obedece.  Marina Silva, como toda ambientalista, apenas limita-se a repetir chavões sobre 'sustentabilidade', 'desenvolvimento responsável' e xaropadas afins.  Finalmente, há a imperecível figura de Plínio de Arruda Sampaio, cujas ideias, que exalam naftalina, fazem com que Robert Mugabe pareça moderado.  E, como bom comunista, obviamente não dispensa o luxo: mora no bairro Alto de Pinheiros, São Paulo, ao mesmo tempo em que defende o confisco da propriedade dos "ricos".

Com a iminência do horário político, que será um verdadeiro tormento para os seres inteligentes pelos próximos dois meses, o IMB vem a público com a missão de poupar o leitor da aflição de ter de se informar sobre o programa econômico dos nobres candidatos.  Aqui vai um breve compêndio de como pensam as esclarecidas mentes destes quatro adoráveis seres que estão ávidos para comandar a sua vida e a economia pelos próximos quatro anos.

José Serra

Comecemos por José Serra.  Este talvez seja o portador do enigma mais transcendental da política brasileira.  Como pode um indivíduo de passado trotskista e presente keynesiano ser considerado o candidato liberal?  Mais ainda: por que um homem claramente de esquerda é odiado mortalmente pela ala esquerdista da sociedade brasileira?

A resposta à primeira pergunta é fácil.  Na falta de um discurso genuinamente liberal, pega-se para ocupar esta vaga o representante do partido cujos membros são vistos pela mídia como sendo os menos esquerdistas.  Desculpem a simplicidade da explicação, mas a resposta à primeira pergunta de fato é esta.

Quanto à segunda pergunta, sua resposta exige um pouco mais de aprofundamento histórico. 

A explicação simples, porém direta, é uma só.  Não é novidade alguma que o cenário político brasileiro está dividido entre duas e apenas duas forças: comunistas e social-democratas.  Esquerda e esquerda.  Qualquer coisa à direita disso está veladamente proibida.  A disputa entre uma direita e uma esquerda, ambas moderadas, é a essência de qualquer democracia europeia, americana ou mesmo colombiana e chilena.  Mas, no Brasil, a coisa é mais progressista.  A disputa se dá apenas entre os espectros à esquerda do centro.

E é aí que vem a resposta: enquanto que nas democracias consolidadas esquerda e direita brigam dentro das regras, historicamente a briga entre social-democratas e comunistas sempre foi coisa feia.  Onde quer que essa briga tenha dominado o palco, houve carnificina.  Na Rússia, os comunistas trucidaram os social-democratas, impondo o regime leninista.  Já na Alemanha ocorreu o contrário, e, após a chacina, o vácuo deixado pelos comunistas foi ocupado pelo populismo nazista.

Como no Brasil não há direita, nem conservadorismo e muito menos liberalismo, qualquer social democrata de maior expressão imediatamente ganha essa pecha.  E, ato contínuo, recebe toda a fúria das esquerdas originadas de movimentos comunistas, como é o caso do PT.  E não adianta: quanto mais o sujeito tenta aquiescer, quanto mais ele tenta conciliar, mais fúria ele atrai. 

Por mais que o sujeito defenda programas sociais politicamente corretos, por mais que ele defenda banco central imprimindo dinheiro para baixar os juros na marra (medida essa que, na verdade, acaba tendo o efeito oposto, algo que keynesiano nenhum entende), por mais que ele defenda crédito fácil e subsídios, por mais que ele defenda o aumento de gastos e investimentos estatais, por mais que ele faça tudo isso, não tem jeito: ainda assim o coitado não consegue o amor das esquerdas.

Justamente por não ser um genuíno conservador ou mesmo um liberal light, mas apenas um social democrata, ele é capaz de materializar toda a fúria esquerdista contra si próprio.

E quando olhamos seu plano de governo, vemos que ele de fato vem se esforçando ao máximo para agradar essa esquerda que tanto o odeia.  Já disse que vai criar mais dois ministérios, sendo um deles voltado para os deficientes físicos (como se um bando de burocratas encastelados em Brasília e comendo dinheiro público ajudasse em alguma coisa um sujeito numa cadeira de rodas vagando pelas ruas de Pirassununga).  O outro ministério seria voltado para a segurança pública.  Esse, sim, promete ser um monumental ralo de dinheiro público, pois os recursos certamente nunca serão o suficiente para dar sequência à imbecil guerra às drogas, por exemplo.

Aprofundando-se ainda mais em seu esforço, o cepalino prometeu duplicar o Bolsa-Família.  Atualmente, o programa atende 12,6 milhões de famílias.  A meta serrista é elevar esse número para parcas 27,6 milhões de famílias.  Ora, se imaginarmos que cada família pobre é formada por pelo menos 4 pessoas, teremos então que num eventual governo Serra nada menos que 110 milhões de pessoas estarão recebendo dinheiro diretamente do governo.  Se a esses números acrescentarmos o número total de funcionários públicos, tanto na ativa quanto aposentados, que até lá já estarão beirando os 11 milhões, temos que nada menos que 121 milhões de pessoas serão "empregadas" do governo.  Algo, no mínimo, soviético.  Sem dúvida, é assim que um país enriquece.

Mas, calma!, ainda tem mais.  O social democrata também prometeu criar um tal Bolsa-Adolescente, que, segundo ele, seria uma ajuda para que jovens concluam o ensino profissionalizante e entrem no mercado de trabalho.  Mais um pouquinho e ainda vão criar uma lei declarando a obrigatoriedade de se fornecer um emprego.  

Ah, sim: segundo o próprio, tal programa está na origem dos programas sociais do governo Lula.  Ambos duelam pra ver quem fez mais "pelo social", para ver quem é o mais progressista. 

Em termos puramente econômicos, no que tange ao papel do estado na economia, Serra já deixou claro em várias entrevistas que acredita no "ativismo estatal", com um governo regulando rigidamente a atividade econômica e investindo em infraestrutura.  Meio que para contrabalançar essas posições explicitamente interventoras, e também para não assustar tanto a sua base eleitoral, formada predominantemente por antipetistas, o tucano sempre recorre ao inefável "tucanês", e diz que a estrutura do estado deve ser "eficiente" — o que significa que dá para "fazer mais com menos recursos." (Normalmente tal frase é pronunciada com o punho fechado, demonstrando o vigor da ideia).

Isso significa que Serra irá cortar gastos?  De modo algum.  Corte de gastos é palavra proibida no vernáculo social-democrata, "pois causa muito sofrimento".  Ademais, temos de admitir, seria muita maldade parar de financiar amostras culturais, festivais de curta-metragem e algum grupo de teatro avant-garde (social democrata que se preze é fluente em francês).  No máximo, com muito esforço, Serra concede que é preciso diminuir o ritmo do aumento dos gastos.  E estamos conversados.

Por fim, há aquele área que faz todo pós-keynesiano salivar: crédito, juros e bancos públicos.  Nesse quesito, Serra garante que não haverá parcimônia.  Juros baixos, concessão de crédito subsidiado via BNDES e bancos estatais estão na pauta do programa keynesiano tucano.

Privatizações?  Nada.  O debate atual passa longe da necessidade de novas privatizações.  A única discussão permitida é perguntar por que o PT não desfez as privatizações que foram feitas pelo governo FHC...

E esse é o candidato liberal.  Analisemos agora sua rival.

Dilma Rousseff

Dilma Rousseff defende as mesmas políticas econômicas de Serra, porém é mais explícita em seu programa.  Sabemos que ambos vão aumentar os gastos, porém a petista não esconde que fará um "reaparelhamento da máquina estatal", com a "valorização do funcionalismo público", sendo que essa sempre foi historicamente a base eleitoral do PT.  Para ela, aqueles que falam que existe inchaço na máquina estatal são necessariamente defensores de um estado mínimo utópico.  Para Lula, um bando de criminosos sem alma e sem piedade. 

Caso Dilma seja eleita, prepare-se para sustentar um exército de marajás que desfrutarão aposentadorias de R$ 18 mil e que ganharão R$ 13 mil para serviços básicos.  E contenha-se, leitor: se você ficar irritado por ter de pagar salários magnânimos para parasitas, trata-se de uma postura criminosa.  Essa política, vale ressaltar, será uma mera continuação da política iniciada por Lula ainda em seu primeiro mandato.

Em um possível governo Dilma, ela própria já garantiu que não apenas não venderá nenhum bem governamental, como também fortalecerá estatais como Petrobras, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e BNDES.

Para contrabalançar, Dilma costuma dizer que irá diminuir a carga tributária sobre a folha de salário e sobre os setores energético e de remédios.  Por que isso sequer foi discutido nos oito anos do governo do qual ela participou integralmente é algo que não deve ser perquirido, pois há o sério risco da candidata se embananar nas respostas.

E quando isso acontece — isto é, quando a petista tenta formular alguma frase — é um Deus nos acuda.  As sentenças não fecham, o raciocínio é torto e confuso, e o discurso não flui, perdendo-se em intermináveis anacolutos.

Como seus marqueteiros já lhe disseram que ela não pode atacar e nem defender nenhum programa em específico (por exemplo, ela não pode desagradar aos ambientalistas e nem ao MST, mas também não pode hostilizar os ruralistas e os pequenos proprietários de terra), a coitada fica perdida e acaba dando respostas impossíveis, na vã esperança de que a embromação irá fazer o espectador crer que ela tem um pensamento percuciente, opalescente, refletido, pautado pelo rigor e pela temperança.

Em termos monetários, não há por que imaginar que ela pense diferente de Serra, embora seja bem possível que ela venha a manter Henrique Meirelles no Banco Central, apenas para manter a confiança dos tais "mercados".

Por fim, vale lembrar que Dilma sempre gostou de enfatizar que o estado deve defender o "interesse nacional" e "a emancipação do povo brasileiro".  Tradução: o governo vai encher o BNDES de dinheiro para que este dê empréstimos subsidiados às grandes empresas, cujos donos possuem ligações estreitas com o governo (o dono de uma famosa cadeia de supermercados não virou um entusiasta petista à toa).  A ideia é criar um conglomerado de empresas nacionais que serão verdadeiras potências mundiais, com o objetivo de dominar o mundo.  É o velho conluio entre estado e grandes corporações, política essa inventada por um cavalheiro chamado Benito Mussolini.

O problema é que, como o BNDES vem sendo financiado diretamente pelo Tesouro — que está vendendo títulos da dívida e dando o dinheiro arrecadado para o BNDES —, isso significa que, para manter esse socialismo para os ricos, a carga tributária e os fardos regulatórios sobre as pequenas empresas terão de seguir aumentando (afinal, alguém precisa pagar pela farra). 

Curiosamente, eis aí um arranjo que não só nenhum partido político condena, como na verdade todos aprovam.  Afinal, são esses barões que, em troca do financiamento camarada do BNDES, irão encher de dinheiro os cofres desses partidos.

O imenso espaço que isso abre no cenário nacional para que algum partido faça um discurso genuinamente libertário em defesa das pequenas empresas e contra subsídios e regulamentações não tem quem o preencha.  E é assim que chegamos ao inevitável arranjo que hoje domina a economia brasileira: subsídios e regulamentações sempre prejudicando a vida das pequenas empresas, e dando vantagens injustas para as grandes empresas.  E depois ainda acham estranho que as pequenas empresas paguem salários baixos...

Marina Silva

O que nos leva à senadora Marina Silva, que tinha potencial para adotar, nem que fosse de forma fingida, esse discurso.

O problema é que a senadora parece um semáforo: às vezes está verde, às vezes está vermelha.  (Se bem que há pouca diferença entre ambas as cores.  Os vermelhos querem abolir a busca individual do lucro e da felicidade pois acham que tal comportamento gera exploração, monopólios e pobreza contínua.  Já os verdes querem aboli-lo pois acham que ele gera chuva ácida, destruição da camada de ozônio e aquecimento global).

Quando está verde, a senadora é inócua.  Tudo o que ela consegue com seus intermináveis discursos sobre a necessidade de termos mais moinhos de vento e menos hidrelétricas é atingir aquela inocente dignidade do ridículo. 

Após 3 minutos de falatório — no qual o espectador é seriamente desafiado a mostrar que não sofre de Distúrbio de Déficit de Atenção —, a senadora já descarregou uma pletora de substantivos abstratos, recheados com vários termos técnicos modernosos sobre meio ambiente e perfeitamente adornados por aquele linguajar poético que mistura o jacaré-do-peito-amarelo, as populações indígenas, os sedimentos e as licenças ambientais.  Tudo isso, é claro, cuidadosamente expressado naquele idioma diretamente saído do manual da agenda politicamente correta do novo milênio. 

Aquela figura de aparência frágil e beata, com voz um tanto sumida, ajuda uma enormidade a aumentar toda a mística em seu entorno, blindando-a da necessidade de quaisquer explicações mais aprofundadas.  Em uma entrevista dada ao programa Roda Viva, a senadora foi perguntada sobre política econômica.  Qual seria a dela?  Iria manter Henrique Meirelles no Banco Central?  A resposta foi um sorriso cândido e vitorioso, típico daqueles que enxergam a política em outro patamar.  O que Marina deu a entender é que essas preocupações são mundanas demais, e já estão devidamente superadas.  O que importa é a nova agenda do milênio, isto é, a sustentabilidade.  Todo o resto é conversa fiada.  Parodiando Fernando Pessoa, em um hipotético governo Marina, mordomos invisíveis seriam encarregados da administração da casa enquanto ela se dedicaria inteiramente aos "temas do futuro", que é o que importa.

Ou seja, quando está verde, a senadora é inócua.  Porém, quando muda pro vermelho, a coisa fica mais séria.  E de modo contraditoriamente engraçado.  Perguntada sobre redução de impostos, ela manda ver: "Eu disse que aumentar, não.  E, se possível, reduzir.  Temos que criar os meios para a redução".  Porém, logo após prometer que não irá aumentar impostos, a digníssima arremata dizendo que irá elevar impostos sobre "indústrias poluidoras" e que irá também promover a unificação do ICMS, numa clara intervenção federal na soberania dos estados — se é que existe alguma.

Tudo o que a economia mais precisa é que o governo imponha custos extras sobre as indústrias e que os estados mais pobres tenham seus ICMSs equiparados aos dos estados mais ricos.  Aparentemente a senadora ignora o fato óbvio de que esses custos extras repercutirão nos investimentos e, consequentemente, nos bens produzidos e nos salários pagos por essas empresas.  Mais ainda: a unificação do ICMS seria péssima justamente para os estados mais pobres.  Afinal, sendo o custo tributário estadual o mesmo, por que abrir fábricas em locais mais atrasados se é possível desfrutar da mão-de-obra e das comodidades dos locais mais ricos?

Sim, de vez em quando ela fala que está preocupada com o aumento da dívida.  A solução?  A mesma de Serra: reduzir o ritmo de aumento dos gastos.  Ambos creem que, dessa forma, o PIB irá crescer proporcionalmente mais que os gastos, reduzindo a dívida.  É tudo na base do achismo, sem qualquer sustentação teórica.  Afinal, por que achar que o PIB vai crescer mais que o ritmo de aumento dos gastos?  "Tudo dando certo, o endividamento tenderá a ficar menor em relação ao tamanho da economia, com o passar do tempo", disse um assessor.

Entendeu? "Tudo dando certo...".

Tudo dando certo, eu posso pular da janela, voar até a lua e ainda voltar a tempo do almoço.  E é isso que hoje em dia se passa por plataforma econômica...

Os nanicos

Mas não se desespere!  Caso ainda esteja insatisfeito com essas três distintas opções, nossa democracia pluralista permite que você possa escolher entre uma gama de partidos nanicos, cujas plataformas são extremamente diversificadas, indo desde a implementação da política econômica da Albânia da década de 1980 (aquela maravilha em que as pessoas, de tão desesperadas, se jogavam ao mar utilizando toras de árvore como bóias) até a restauração do regime maoísta.

Por exemplo, Plínio de Arruda Sampaio e seu P-SOL.  Eis aí um partido fundado inteiramente pela ala xiita do PT, com quadros majoritariamente vindos do PT gaúcho e paulista, os mais radicais.  Seus membros defendem desavergonhadamente a tomada da propriedade dos meios de produção. 

Muitos dizem que Plínio é um sujeito caricato demais e, logo, inofensivo.  Ledo engano.  Embora suas chances sejam nulas, o fato é que sua simples presença na campanha serve a um propósito muito mais avançado, a uma estratégia muito bem bolada: seu discurso de extrema-esquerda serve para deslocar o fiel da balança para essa direção, fazendo com que qualquer discurso mais à direita do PSDB seja visto como radical.  Com o fiel da balança violentamente girado para a esquerda, o lugar nominal do que seria a "direita" foi ocupado pelos tucanos, os quais na Europa seriam vistos como um partido social democrata qualquer — e, naturalmente, de esquerda.

Com esse o quadro de opções políticas completamente falseado, a hipótese de um discurso genuinamente liberal se tornou inviável e inconcebível no Brasil.  

Conclusão

Pronto.  Eis aí a nossa democracia em ação.  Eis aí a plataforma política de nossos potenciais chefes de governo.

Estranhamente, ninguém vê esse processo como uma anormalidade.  Ao contrário: as pessoas, inclusive os bem pensantes, veem aí uma saudável demonstração de pluralidade democrática.  Para a mídia e, principalmente, para o establishment universitário, o Brasil está perfeitamente dentro do espectro político aceitável, com partidos que vão desde a extrema-esquerda, de um lado, até a democracia socialista, do lado oposto.  E só.  Acabam por aí as opções.  Mesmo a social-democracia escandinava, com sua economia privada altamente desregulamentada, pouca burocracia, inexistência de salário mínimo e de bancos estatais, e com ampla liberdade comercial, não possui representantes por aqui.

Mises sempre dizia que, para poder sobreviver, o ser humano precisa ser capaz de pensar, precisa saber usar corretamente suas faculdades mentais.  Pelo visto, os brasileiros há muito já terceirizaram essa função.  Hoje, quem pensa pela população são a mídia e os intelectuais universitários.  E isso ajuda a explicar por que o país é uma fonte tão escassa de pensamento original e significativo.

Isso é realmente assustador.  E o que é ainda mais apavorante é ver que mesmo o universo intelectualmente independente — incluindo-se aí blogueiros famosos e muito lidos, professores de economia com grande reputação, historiadores e filósofos, e todos os outros campos direta ou indiretamente ligados à política — está predominantemente contaminado pelo mesmo nível de ignorância, o que o impede de identificar esse mesmo problema nos candidatos.  Aparentemente estamos vivendo em uma sociedade cuja cultura econômica é comparável a uma mesa de sinuca, na qual bolas de bilhar inconscientes se colidem ao acaso, sem que qualquer conhecimento ou compreensão da situação estejam presentes.



28/07/2010 00:00  por  Fernando Ulrich \  economia

Prezado leitor do IMB, perdoe-me a pretensão, porém me vejo obrigado a aproveitar este espaço para corrigir um erro da revista quinzenal Exame, edição 972 de 28/7/2010, cuja capa estampa a seguinte frase: Consumo, a força que move a economia.

Pela presente errata, retifico, não é o consumo que move a economia, é a produção!

Apesar da matéria de capa não entrar no debate econômico, acredito ser imprescindível que os leitores do IMB enxerguem a mídia através das "lentes" austríacas.

O artigo da editora Abril ilustra na verdade o fato de o mercado consumidor brasileiro estar crescendo. Indiscutivelmente e apesar do Governo, a economia brasileira vivencia um bom momento, com desemprego em baixa e aumento de renda, inserindo na economia camadas da população que antes praticamente não participavam. Sem entrar no mérito da sustentabilidade do cenário econômico brasileiro, é fato que este mercado consumidor está aumentando. Não se esqueçam, eu disse "apesar" do Governo.

Mas voltemos ao título da Exame. Ao contrário do que é divulgado intensa e quase que sublinarmente, dia após dia, o consumo não é a força que move a economia. O consumo americano não é o motor da economia mundial, é o principal entrave.

Consumo é a consequência da produção. Para que algo possa ser consumido, é preciso que este algo seja previamente produzido. Economistas keynesianos e do mainstream costumam inverter as relações de causa e efeito.

Portanto, quanto maior for a produção, maior será o consumo. Para que a produção aumente é necessário que haja investimento. Para investir é necessário poupar.

Os chineses pouparam e produziram. Os americanos consumiram comprando fiado dos chineses. Se os americanos não começarem a produzir, jamais poderão pagar a conta.

Enquanto economistas e leigos da mídia continuarem a perpetuar falácias como esta, será difícil corrigir as distorções da economia mundial.




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