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Se a meta é coibir imigrantes ilegais, traficantes e terroristas, há uma solução melhor que o muro
por Ron Paul, quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Com apenas uma semana no cargo de presidente, Donald Trump já está seguindo sua promessa de atacar a imigração ilegal. No dia 25 de janeiro, ele assinou a ordem executiva para iniciar a construção de um muro ao longo de toda a fronteira entre EUA e México.

Infelizmente, há várias razões por que essa solução proposta não irá nem sequer nos aproximar da solução do problema.

Para começar, o muro não irá funcionar. Dez anos atrás, o Texas começou a construir uma cerca na fronteira. Mas a cerca serviu apenas para criar confusão: ela separou algumas pessoas de suas respectivas propriedades, que ficaram do outro lado da fronteira; ela gerou uma série de despejos e desapropriações (por meio da lei do "domínio eminente"); e, no final, o problema do tráfico de drogas e de pessoas não foi resolvido.

Em segundo lugar, o muro será caro. Uma estimativa conservadora coloca os custos em algo entre 12 e 15 bilhões de dólares. Sendo uma obra gerida pelo governo, pode apostar que será bem mais do que isso.

Trump afirmou que, se o governo do México não pagar pelo muro, ele irá impor uma tarifa de importação de 20% nos produtos mexicanos comprados pelos americanos. Quem irá pagar esse imposto? Em última instância, os consumidores americanos. Tarifas de importação nada mais são do que uma sobretaxa aplicada pelo governo nacional a um produto estrangeiro quando este entra no país. Isso, obviamente, irá afetar com mais intensidade os americanos mais pobres.

Em terceiro lugar, e mais importante, construir um muro ignora as verdadeiras causas de por que as pessoas cruzam ilegalmente as fronteiras dos EUA. Embora Trump esteja correto em priorizar a questão da segurança interna, ele erra o alvo: a questão pode ser resolvida de uma maneira mais efetiva e, principalmente, com um real benefício financeiro para o país -- e não com um enorme custo econômico, como é o caso do muro.

A solução para realmente atacar o problema da imigração ilegal, do tráfico de drogas, e da ameaça da entrada de terroristas pela fronteira é clara: remova o incentivo gerado pelos programas assistencialistas, que nada mais são do que um ímã que atrai várias pessoas a cruzarem as fronteiras ilegalmente; interrompa as várias intervenções bélicas americanas no Oriente Médio, que já duram 25 anos; e acabe com a guerra as drogas, cuja proibição serve apenas para gerar um mercado negro perigoso e altamente lucrativo, o que incentiva os mais violentos traficantes a cruzarem as fronteiras.

Os vários programas assistencialistas financiados pelos pagadores de impostos americanos e que beneficiam os imigrantes ilegais que entram nos EUA -- como as transferências financeiras diretas, os benefícios médicos, a distribuição de alimentos, e a educação pública -- custam estimados US$ 100 bilhões por ano. Isso é um fardo significativo sobre os cidadãos e residentes legais.

A promessa de dinheiro gratuito, comida gratuita, educação gratuita, e serviços médicos gratuitos para quem cruzar a fronteira ilegalmente é um poderoso incentivo para as pessoas o fazerem. Acima de tudo, não faz absolutamente nenhum sentido o governo americano fornecer esses serviços para aqueles que não estão no país legalmente. (Ver aqui, aqui e aqui)

Esta, aliás, é uma contradição que não tem como ser ignorada. De um lado, o governo cria dificuldades e tormentos burocráticos para aqueles que desejam seguir as leis e entrar legalmente para trabalhar. De outro, o mesmo governo, involuntária e artificialmente, estimula imigrações ilegais em massa de estrangeiros em decorrência dos programas sociais e assistencialistas financiados pelos impostos dos nativos e implantados por meio de políticas redistributivistas.

Ou seja: aqueles que querem seguir escrupulosamente as leis percebem que seus processos de emigração são impossíveis, mesmo que eles tenham sido voluntariamente aceitos e desejados por seus empregadores americanos.  Ao mesmo tempo, a existência de bens públicos e a livre disponibilidade dos benefícios ofertados pelo estado assistencialista atraem, como um ímã, um contínuo fluxo imigratório ilegal, o qual gera conflitos e custos externos significativos.  Nativos pagam impostos para financiar programas assistencialistas, e estes são utilizados por imigrantes ilegais.

Igualmente, a guerra às drogas, que já dura 40 anos, não apenas não produziu nenhum benefício líquido para os americanos, como ainda custa extremamente caro. Estima-se que, desde que o então presidente Nixon declarou guerra às drogas, os EUA já gastaram mais de um trilhão de dólares nessa batalha impossível de ser vencida. Isso porque, assim como o assistencialismo funciona como um ímã, a guerra às drogas cria um extremamente lucrativo mercado negro, no qual apenas os mais violentos e mais bem armados prevalecem. A alta lucratividade estimula a remessa de drogas para os EUA; a periculosidade estimula a entrada de indivíduos violentos. (Veja toda a explicação econômica para o mercado das drogas neste artigo).

Neste quesito, há uma vantagem: já sabemos o efeito que o fim da guerra às drogas gera no comércio ilegal. Desde que alguns estados americanos descriminalizaram a maconha para usos medicinais e recreativos, o contrabando de maconha do México para os EUA caiu 50% desde 2010, o que vem afetando a rentabilidade dos cartéis mexicanos.

Finalmente, a ameaça de terroristas entrarem nos EUA através da fronteira com o México deve ser levada muito a sério; entretanto, mais uma vez, temos de considerar, de maneira sóbria e ponderada, por que eles querem nos atacar.

O governo americano está jogando bombas no Oriente Médio desde 1990. Só no ano passado, o então presidente Obama despejou mais de 26 mil bombas na região. Milhares de civis já foram mortos em ataques de drones americanos. O grande plano americano de "recriar" o Oriente Médio gerou apenas miséria, sofrimento, banho de sangue e mais terrorismo. Acabar com esta insensata intervenção externa fará bastante para remover os incentivos para se atacar os EUA. (Vale lembrar que a França é dos maiores agressores do Oriente Médio; já a Suíça nunca atacou ninguém e nunca sofreu ataque terrorista).

Creio ser importante para os EUA terem fronteiras seguras para impedir a entrada de criminosos, de terroristas e de aproveitadores. Porém, e infelizmente, o plano do presidente Trump de construir um muro acabará custando uma fortuna e continuará ignorando os reais problemas de por que as pessoas cruzam as fronteiras ilegalmente. Elas continuarão cruzando enquanto aqueles incentivos permanecerem.

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