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Uma reunião entre o Ministério da Fazenda e a presidente
por Fernando Ulrich, sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Na capital da República da Banânia, a equipe econômica foi convocada em regime de urgência pela Presidente. Inconformada com a recessão passada, presente e futura, a presidente cobrou ações para retomar o crescimento da economia do país:

– Que porcaria é essa, Ministro? Tá de brincadeira comigo? As previsões do mercado, antes pessimistas, agora são consideradas otimistas? A cada mês os economistas preveem uma recessão ainda pior?

– Mas Sra. Presidente... uh, perdão, Sra. Presidenta..., agora que 2015 já acabou, está claro que a recessão foi mais forte mesmo. A realidade está dada. O que dá para fazer é a gente trocar uma ideia com o pessoal do Instituto de Estatística. Sabe como é -- disse o ministro com um sorriso maroto --, sempre há revisões para fazer no PIB.

Todos os presentes caíram na gargalhada. Menos a Presidente.

– Sr. Ministro, isso é o óbvio. É o mínimo que se espera da sua equipe. O que quero agora é que vocês pensem fora da caixa, droga. Não admito mais recessão. 2016 mal começou, não podemos perder o ano!

– Já sei! -- disse o secretário-executivo -- Por que não damos mais crédito à economia?

– Isso! -- respondeu a Presidente aliviada -- Agora tô gostando de ver!

– Uh, com licença. Na verdade, já tentamos isso em 2010 -- interrompeu um economista-adjunto.

– Ué, e a economia não bombou?

– Sim, mas era outro momento, o mercado não estava de birra com o governo, as contas públicas estavam tranquilas, o dólar estava mundialmente fraco, e até os bancos privados entraram na onda. Desta vez não iria funcionar.

Com apenas um olhar fuzilante, o ministro captou a mensagem da Presidente e pediu que o economista-adjunto buscasse um relatório na pasta dos documentos "perdidos e não encontrados". A Presidente nem esperou o economista sair da sala e retomou a reunião indagando aos presentes novamente:

– Ok, o que mais podemos fazer? Ideias, quero ideias.

– Acho que se criarmos alguma política de crédito direcionado à indústria, ao setor rural e à construção podemos induzir o empresariado a investir novamente – ponderou o subsecretário para assuntos econômicos.

– E por que não pensamos nisso antes?! – perguntou a Presidente claramente empolgada – Toquem ficha!

– Mas, Sra. Presidenta, em 2011 e 2012 adotamos exatamente essa política e a economia não respondeu como esperado. Aliás, foi a partir daí que o sinal amarelo começou a piscar – retrucou outro economista-adjunto.

Visivelmente irritada e ignorando por completo a interjeição do economista impertinente, a Presidente seguiu pressionando a equipe econômica:

– E aí, Sr. Ministro? Sejam criativos, como é que podemos sair dessa crise?

Após alguns segundos de contemplação, o subsecretário de gestão estratégica deu um pulo da cadeira:

– Tenho um plano! Quem sabe a gente injeta ainda mais crédito na economia?

–Booooaaaaa... – disse o Ministro todo orgulhoso, dando um tapinha nas costas do seu pupilo.

– Com o perdão da redundância, Sr. Ministro -- pediu a palavra mais outro economista-adjunto --, mas não foi isso o que fizemos em 2013 e 2014? Em 2013 tivemos os investimentos da Copa e foi um ano pré-eleitoral, que todo mundo sabe como é, e o PIB até se mexeu um pouco. Mas 2014 já foi uma pindaíba recessiva.

– Ah é, espertalhão? E como você explica 2015 então? Foi só a gente cortar um pouco o crédito para a economia descarrilhar, ora bolas! – respondeu a Presidente já sem a paciência que jamais teve.

E então alguém disse:

– Olha, Sra. Presidenta, 2015 em realidade foi muito mais do que apenas o fim da farra do crédito farto e barato. Aí o orçamento público já estava bastante desarrumado, e o mercado, antes preocupado, agora já tinha perdido a confiança no governo. Vocês prometendo mais aumento de imposto e sem querer cortar nenhuma despesa também não animou ninguém. De quebra, o dólar disparou e a economia acabou desabando. De onde eu venho, a gente diz que "muito ajuda quem não atrapalha". Acho que o ano passado foi o resultado de muito governo metendo o bedelho na economia por vários anos.

Fumegando em fúria, a Presidente levantou-se da mesa:

– Quanta petulância! Quem disse isso?!

– Eu aqui, Sra. Presidenta – disse o senhor que servia o cafezinho aos presentes.

– Má que p**** é essa?! Agora o cara do cafezinho quer dar pitaco! Era só o que me faltava!

Sob os olhares assustados dos que ainda sentavam-se à mesa -- metade já havia debandado --, o Ministro da Fazenda procurou acalmar a Presidente.

– Calma, Sra. Presidenta. Não lhe dê ouvidos. -- disse o Ministro encarando o mordomo do Planalto e indicando-lhe a porta de saída -- Vamos encontrar uma solução.

Depois de uma breve pausa e um copo d'água com açúcar, a Presidente retomou os trabalhos, concedendo ao Ministro a palavra:

– Sra. Presidenta, troquei uma ideia com meus assessores e acho que temos um bom plano. Agora que quitamos as pedaladas com nossos bancos públicos, vamos usá-los para dar muito mais crédito à economia. O que você acha?

– Finalmente, Ministro! Eu sabia que podia contar contigo! Vamos fazer essa economia bombar e esfregar o PIB na cara do neoliberalismo! Ajuste fiscal é o #$%&*@! Preparem a nota oficial e convoquem a imprensa. Vai quebrar a cara quem apostar contra o Brasil!

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Letreiro após o encerramento do ato:

2010: Governo ajudou economia com crédito, economia bombou

2011: Governo ajudou economia com crédito, economia já não cresceu muito

2012: Governo ajudou economia com crédito, sinal amarelo

2013: Governo ajudou economia com crédito, PIB recuperou um pouco (Copa, pré-eleições)

2014: Governo ajudou economia com crédito, sinal vermelho, primeira recessão

2015: Acabou o crédito e a economia foi para o vinagre, recessão brutal

2016: Governo quer ajudar economia com mais crédito