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Capitalismo, felicidade e beleza
por Ludwig von Mises, domingo, 29 de novembro de 2015

Os críticos fazem duas acusações ao capitalismo.  A primeira consiste em dizer que a posse de um carro, de um aparelho de televisão e de uma geladeira não faz o homem feliz.  A segunda é que ainda existem pessoas que não possuem nenhum desses objetos.  Ambas as proposições são corretas, mas não conseguem denegrir o sistema capitalista baseado nas transações voluntárias e na cooperação social. 

As pessoas não se esforçam e se afligem a fim de obter a felicidade perfeita, mas a fim de eliminar ao máximo as dificuldades que se apresentam e, assim, tornarem-se mais felizes do que eram antes.  O homem que compra um televisor deixa evidente o fato de que a posse desse aparelho aumentará seu bem-estar e o tornará mais contente do que antes.  Caso contrário, ele não o teria comprado.  

A tarefa do médico não é a de tornar o paciente feliz, mas sim de eliminar a dor e deixá-lo em melhor disposição para que possa atingir o objetivo principal de todo ser humano, qual seja, a luta contra todos os fatores nocivos à sua vida e ao seu bem-estar. 

É verdade que existem entre os monges budistas, que vivem de esmolas, na sujeira e na penúria, alguns que se sentem perfeitamente felizes e não têm inveja de nenhum ricaço.  Todavia, é verdade que, para a grande maioria das pessoas, uma vida assim parece insuportável.  Para elas, o impulso no sentido de incessantemente almejar a melhoria das condições externas de vida é inato.  Quem ousaria apontar um pedinte asiático como exemplo para um norte-americano de classe média?  Um dos maiores sucessos do capitalismo é a queda da mortalidade infantil.  Quem pode negar que este fenômeno, ao menos, removeu uma das causas da infelicidade de muitas pessoas? 

Não menos absurda é a segunda acusação lançada contra o capitalismo: que as inovações tecnológicas e terapêuticas não beneficiam a todos.  As mudanças nas condições humanas são conseguidas pelo pioneirismo dos homens mais inteligentes e mais dinâmicos.  Eles assumem a liderança, e o resto da humanidade os segue pouco a pouco.  A inovação é, no início, um luxo de apenas alguns até que, gradativamente, passa a ficar ao alcance da maioria.  

Não é a objeção consciente ao uso de sapatos ou talheres que faz com que eles se propaguem lentamente e com que ainda hoje milhões de pessoas vivam sem eles.  As delicadas senhoras e os cavalheiros que primeiro se utilizaram do sabonete foram os precursores da produção de sabonetes em larga escala para o homem comum.  Se quem hoje dispõe de meios para adquirir um televisor resolvesse se abster de comprá-lo porque algumas pessoas não têm recursos para isso, não estaria promovendo, mas sim retardando a popularização desse aparelho.

E há também os descontentes que atacam o capitalismo pelo que julgam ser seu sórdido materialismo.  Como eles não podem negar que o capitalismo tem a tendência de melhorar as condições materiais da humanidade, eles apenas recorrem ao argumento de que o capitalismo tem afastado os homens de objetivos mais elevados e nobres.  Segundo eles, o capitalismo alimenta os organismos mas enfraquece os espíritos e as mentes.  Provocou a ruína das artes.  Esquecidos estão os dias dos grandes poetas, pintores, escultores e arquitetos; nossa era produz apenas lixo. 

O problema é que o juízo a respeito dos méritos de uma obra de arte é totalmente subjetivo.  Algumas pessoas estimam o que outras desprezam.  Não existe uma medida para julgar o valor artístico de um poema ou de um edifício.  Quem se encanta com a Catedral de Chartres e com As meninas, de Velásquez, talvez julgue que os que permanecem insensíveis a essas maravilhas são pessoas rudes.  Muitos estudantes se aborrecem ao máximo quando a escola os obriga a ler Hamlet.  Apenas as pessoas tocadas pela centelha da mentalidade artística têm condições de apreciar e de desfrutar da obra de um artista. 

Entre os que se pretendem homens educados existe muita hipocrisia.  Assumem ares de conhecedores e simulam entusiasmo pela arte do passado e pelos artistas falecidos há muito tempo.  Não demonstram a mesma simpatia pelo artista contemporâneo que ainda luta por reconhecimento.  A aparente adoração pelos velhos mestres é para eles um meio de depreciar e ridicularizar os novos artistas que se afastam dos cânones tradicionais para criar os seus próprios.

John Ruskin será sempre lembrado -- junto com Thomas Carlyle, Sydney e Beatrice Webb, George Bernard Shaw e outros -- como um dos coveiros da liberdade, da civilização e da prosperidade britânica.  Caráter desprezível, tanto na vida particular como na vida pública, ele glorificava a guerra e a carnificina e fanaticamente difamava os ensinamentos da economia política, que não chegava a compreender.  Era um fanático detrator da economia de mercado e um romântico enaltecedor das guildas.  Prestava homenagem às artes dos séculos primitivos.  

Porém, ao defrontar-se com a obra de um grande artista vivo, Whistler, censurou-a numa linguagem tão sórdida e injuriante, que foi processado por difamação e declarado culpado pelo júri.  Foram as composições literárias de Ruskin que popularizaram o preconceito de que o capitalismo, além de ser um péssimo sistema econômico, substituiu a beleza pela feiúra, o esplendor pela trivialidade, a arte pelo lixo. 

Como há muita discordância na apreciação das obras artísticas, e dado que esse tema é totalmente subjetivo, não é possível refutar os rumores sobre a inferioridade artística da era do capitalismo da mesma maneira irrefutável com que se pode contestar os erros num raciocínio lógico ou na apresentação dos fatos da experiência.  Assim mesmo, nenhum homem normal seria capaz de depreciar o esplendor das realizações artísticas da era do capitalismo. 

A mais proeminente arte desta época de "sórdido materialismo e enriquecimento" foi a música.  Wagner e Verdi, Berlioz e Bizet, Brahms e Bruckner, Hugo Wolf e Mahler, Puccini e Richard Strauss, que ilustre desfile!  Que período notável em que mestres como Schumann e Donizetti foram ofuscados por gênios ainda maiores! 

Foi aí que surgiram os grandes romances de Balzac, Flaubert, Maupassant, Jens Jacobsen, Proust, e os poemas de Victor Hugo, Walt Whitman, Rilke e Yeats.  Como seriam pobres nossas vidas se não tivéssemos conhecido as obras desses gigantes e as de muitos outros autores não menos importantes. 

Não podemos esquecer os pintores e escultores franceses que nos ensinaram novas maneiras de olhar para o mundo e de apreciar a luz e a cor. 

Ninguém jamais contestou que essa era incentivou todos os ramos da atividade científica.  Porém, afirmam os descontentes, tudo isso era apenas um trabalho de especialistas ao qual faltava "síntese".  Não é possível distorcer de modo mais absurdo os ensinamentos da matemática moderna, da física e da biologia.  E o que dizer dos livros de filósofos como Croce, Bergson, Husserl e Whitehead

Cada época tem caráter próprio em suas realizações artísticas.  A imitação das obras-primas do passado não é arte; é repetição.  O que valoriza uma obra são as características que a tornam diferente de outras.  Isto é o que se chama o estilo de uma época. 

Em certo sentido, os enaltecedores do passado parecem estar certos.  As últimas gerações não nos legaram monumentos tais como as pirâmides, os templos gregos, as catedrais góticas, as igrejas e palácios da renascença e do barroco.  Nos últimos cem anos, muitas igrejas e até mesmo catedrais foram construídas, assim como palácios do governo, escolas e bibliotecas.  Mas não apresentam qualquer concepção original; refletem velhos estilos ou mistura de vários estilos antigos.  Apenas nos prédios de apartamentos, nos edifícios comerciais e nas casas particulares notou-se uma evolução que poderá ser considerada como um estilo arquitetônico de nossa era.  Embora pareça pedante deixar de admirar o esplendor peculiar de espetáculos como a silhueta da cidade de Nova York, pode-se admitir que a arquitetura moderna não alcançou o destaque da dos últimos séculos. 

Os motivos são muitos.  No que diz respeito às construções religiosas, o acentuado conservadorismo das igrejas afasta qualquer inovação.  Com o passar das dinastias e das aristocracias, o estímulo para construir novos palácios desapareceu.  A riqueza dos empresários e capitalistas, por mais que os demagogos anticapitalistas possam fantasiar, é tão inferior à dos reis e príncipes, que eles não podem se permitir tão luxuosas construções.  Ninguém hoje é suficientemente rico para planejar palácios como os de Versailles ou o Escorial.  

As autorizações para a construção dos edifícios do governo não mais emanam de déspotas que tinham a liberdade -- a despeito da opinião pública -- de escolher um arquiteto por quem tinham alta estima e para patrocinar um projeto que escandalizava a grande maioria. Comissões e juntas administrativas não estão dispostas a adotar as idéias dos ousados pioneiros.  Elas preferem situar-se do lado seguro. 

Jamais houve uma época em que a maioria estivesse preparada para fazer justiça à arte contemporânea.  O fato de reconhecer os grandes autores e artistas sempre foi limitado a pequenos grupos.  O que caracteriza o capitalismo não é o mau gosto das multidões, mas o fato de que essas mesmas multidões, tornadas prósperas pelo capitalismo, passaram a ser "consumidoras" de literatura -- obviamente da literatura de baixa qualidade.  O mercado de livros está invadido pela literatura banal destinada aos semibárbaros.  Mas isso não impede que grandes autores criem obras imortais.

Os críticos derramam lágrimas pela suposta decadência das artes industriais.  Comparam, por exemplo, as mobílias antigas preservadas nos castelos das famílias aristocratas europeias e nas coleções de museus, com as peças baratas geradas pela produção em larga escala.  Não percebem que esses artigos dos colecionadores foram feitos exclusivamente para os abastados.  As arcas entalhadas e as mesas marchetadas não poderiam ser encontradas nas miseráveis choupanas das camadas mais pobres.  

Quando a indústria moderna começou a suprir as massas com todos os instrumentos e parafernália que melhoraram a qualidade de vida destas massas, seu principal objetivo era produzir o mais barato possível, sem qualquer preocupação com os valores estéticos.  Mais tarde, quando o progresso do capitalismo elevou o padrão de vida das massas, a indústria voltou-se pouco a pouco para a fabricação de coisas mais refinadas e bonitas.  

Somente uma predisposição romântica pode induzir um observador a ignorar o fato de que cada vez mais os cidadãos dos países capitalistas vivem num meio que não pode ser simplesmente tido como feio.

 

Texto originalmente publicado em 1954